13/03/2004 20:25
Poesia de um dia cinza
O orvalho do capim parece sua armadura de prata refletindo o céu cinza que insiste em chorar sobre nós. Vem o vento, enquanto tenta enxugar suas lágrimas corta-nos com suas lâminas tão finas, tão finas...
Ouvem-se os passos que aos poucos vão se tornando mais volumosos, ouço meus pensamentos, quase serenos, quase confusos, quase só meus.
O chão é frio, quase tão frio quanto estes versos; o vento tenta mais uma vez e corta meu pensamento.
Posso ouvir os pássaros e, quando os carros silenciam, é possível ouvir as folhas se tocando nas copas das árvores.
A formiga está apressada, como sempre, a moça está apressada, como sempre, e, os carros também, mas o vento continua sereno, o mesmo, senão um pouco mais frio.
Já não há muito a ser dito, todos os dias numa folha de papel, ano após ano, metas parecidas em mentes parecidas de tanto buscarem a originalidade, todos os dia alinhados, um após o outro, como as linhas de um poema; as mesmas críticas, as mesmas idéias inéditas, a mesma inação.
É um milagre que eu ainda consiga observar tudo isto assim desta forma; com esta sensação ilusória de que ainda não fui afetado ou infectado por esse marasmo cotidiano. Doce ilusão, amarga verdade.
Ao menos ainda consigo sorrir, o humor ajuda a suportar o tédio, sobrevivemos de migalhas de pequenas alegrias. Perdoar os outros é fácil, admitir que contribuímos com a perpetuação do que é sem sentido nos causa náuseas.
Agora, um desabafo é quase inútil, quase sem sentido, quase sem força, quase um poema.
Clodoilson Ferreira Lemos
enviada por Jack
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